O silêncio de várias crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual começa a ser rompido. No Ceará, o número de denúncias deste tipo de violência cresceu cerca 60% em 2008, se comparado a 2007. O dado é do Núcleo de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, vinculado à Secretaria Estadual do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS). No ano passado, foram registradas 435 denúncias, enquanto em 2007, foram 272. Os números ainda não revelam o retrato do abuso sexual. Por trás dos casos denunciados, há várias crianças sendo vitimadas e, na maioria das vezes, dentro de casa.
O POVO inicia hoje uma série de matérias sobre esta violência, que, silenciosamente, rouba a infância e adolescência de vários meninos e meninas. Só neste ano de 2009, em janeiro e fevereiro, o Núcleo já registrou 60 denúncias. Isso significa que pelo menos um caso de abuso sexual foi denunciado por dia no Ceará. No ano passado, no mesmo período, a população denunciou 54 casos.
São histórias como a da adolescente de 15 anos, abusada pelo pai desde os nove. A violência se repetia na ausência da mãe e à noite, quando a criança já estava em sua rede dormindo. Conforme relatos da criança, além das ameaças, o pai dizia que ela não contasse a ninguém, pois, caso contrário, as pessoas não acreditariam, ou ficariam contra ela, fazendo a mãe sofrer. Para a jovem, a mãe sabia, mas preferia não acreditar ou fingia não saber. Até que um dia, a adolescente não aguentou mais e contou a uma professora. Quando começou a ser acompanhada psicologicamente, já apresentava quadros de depressão e transtorno alimentar.
Para que as vítimas e as famílias passem por um atendimento psicológico, recebam orientações e assessoria jurídica, é fundamental denunciar. De acordo com a diretora do Núcleo, Débora Teixeira, a população tem se conscientizado dos mecanismos de denúncia e várias campanhas são realizadas durante o ano para isso. Segundo a assistente social Veranísia Damasceno Rocha, que trabalha no Núcleo, as denúncias estão crescendo também porque o assunto sexo tem sido mais trabalhado nas famílias, nas escolas, em palestras.
Apesar do crescimento, muita coisa ainda precisa mudar. “O tabu de falar sobre sexualidade já é menor, mas ainda existe”, afirma. Débora explica que o abuso sexual costuma ser praticado por pessoas da família ou que têm uma relação de confiança, podendo ou não haver estupro. “O abuso sexual começa na manipulação do corpo, na carícia”, alerta Veranísia. Na maioria dos casos, o agressor é o próprio pai, padrasto, tio, mas também pode ser praticado pela mãe, tia ou irmãos. O agressor se aproveita da relação de confiança e inicia um jogo de sedução.
Segundo Débora, ainda existe um pacto de silêncio, por causa do medo de denunciar, do mito de que a família é um local sagrado, da vergonha. “Existem vários preconceitos sociais. A família tem sido um local onde as crianças têm sido vítimas de várias formas de violência. Muitas pessoas preferem não se envolver, acham que os pais é que sabem a melhor forma de criar os filhos”, lamenta, destacando que além do medo de denunciar e a negligência da sociedade.
EMAIS - Núcleo de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, que atende a denúncias em nível estadual, o Município e o Governo Federal também dispõem de números telefônicos para a denúncia. Não é preciso se identificar.
- O Disque Direitos Criança e Adolescente, da Prefeitura de Fortaleza, atendeu a 71 denúncias de abuso sexual de maio a dezembro de 2008 na Capital. Já o Disque-100, do Governo Federal, atendeu a 1.024 casos no Ceará no ano passado, sendo 651 em Fortaleza.
- É possível que um caso seja denunciado em apenas um dos disque-denúncias, assim como um mesmo caso pode ser denunciado em todos eles.
FALE COM A GENTE lucinthya@opovo.com.br LEIA AMANHÃ - Saiba como identificar sinais de que a criança pode estar sendo vítima de abuso sexual. Veja também como perceber o comportamento de abusadores
Muitas vezes, a criança vítima de abuso sexual não tem consciência de que está sofrendo uma agressão. Quando menos imagina, está sozinha e submersa num problema sério, de onde não consegue mais sair. Como a violência costuma acontecer dentro de casa, os pensamentos e sentimentos ficam confusos. A criança sofre a culpa que não tem. “Geralmente é uma crianç a triste, introvertida, não tem bom rendimento na escola”, diz a assistente social Veranísia Damasceno Rocha, que trabalha no Núcleo de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes.
Quando o pai é o agressor, a criança não consegue entender esta relação de amor e ódio. Segundo a diretora do Núcleo, Débora Teixeira, a criança ou adolescente se questiona: “Que amor é esse que meu pai tem me dado?”. Há casos em que a mãe sabe da violência, mas é conivente, vivenciando também uma violência psicológica. Em outras situações, é ameaçada ou teme que o marido, o provedor da casa, seja preso.
Conforme Débora, é fundamental responsabilizar o agressor, e iniciar um acompanhamento da família, pois a tendência é que a agressão continue. O acompanhamento psicológico é fundamental para que a criança compreenda a agressão como violência. “A tendência é essa vítima se tornar um agressor”, disse, acrescentando que a criança ou adolescente precisa superar essa situação de violência.
SERVIÇO
Disque-Denúncia Municipal: 0800 285 0880
Disque-Denúncia Estadual: 0800 285 1407
Disque-Denúncia Nacional: 100
DICIONÁRIO
ABUSO SEXUAL
É a utilização da criança ou adolescente em uma relação de poder desigual, geralmente por pessoas muito próximas, podendo ser ou não da família, e que se aproveitam dessa relação de poder e de confiança sobre o menino ou menina para satisfazer seus desejos sexuais. Pode ocorrer com ou sem violência física, mas a violência psicológica está sempre presente.
Fonte: Cartilha "Como prevenir e combater a violência sexual contra crianças e adolescentes"