Violência velada nas classes média e alta 17/3/2009

Clipping Curumins - jornal Diário do Nordeste

Denúncias

Violência velada nas classes média e alta

A maioria das denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes é feita pela população de baixa renda. De acordo com especialistas, o pacto do silêncio ainda não foi superado pelas classes média e alta, onde a violência permanece velada

Lucinthya Gomes
da Redação

A denúncia é o principal instrumento para romper o ciclo da violência. Com o crescimento do número de denúncias, especialistas afirmam que as pessoas estão mais conscientes, mas destacam que a maioria dos casos denunciados está acontecendo nas classes sociais mais baixas. Isso não quer dizer que, nas classes mais elevadas, o abuso sexual não aconteça. Pelo contrário, mostra que, nestes grupos, a violência continua velada.

O professor e coordenador do curso de Psicologia do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac), Liércio Pinheiro, que pesquisa a psicologia da violência, estudou os dados do Disque-100, considerando a realidade de Maceió (AL), mas obteve conclusões que se refletem nos demais estados. “O que nós descobrimos é aquilo que existe no Brasil inteiro. O grande índice de denúncias está voltado para classes populares. O abuso sexual sempre existiu na história da humanidade”, lamenta.

De acordo com Pinheiro, este tipo de violência está em todas as classes, independente de credo e cor. Na avaliação dele, o que leva as famílias de maior poder aquisitivo a não denunciar é a preocupação em manter o status quo. “A manutenção do status quo se soma à pressão do abusador sobre a família. Existe um segredo que está implícito com o abuso. Ele ameaça não só a criança, mas também a mãe”, afirma.

Segundo a diretora do Núcleo Estadual de Enfrentamento à Violência contra Crianças e Adolescentes, Débora Teixeira, quem tem melhor condição financeira tem mais recursos e privacidade para esconder o problema. “Existe o medo de (o problema) ser divulgado. Então, abafa-se o caso ali mesmo”, explica.

Quando não há a responsabilização do agressor, Débora alerta que a tendência é ele continuar essa agressão, fazendo outras vítimas. De acordo com ela, o Núcleo até já registrou denúncias de abuso sexual em famílias de classe média. “Geralmente, são casos em que o agressor já vem com advogado. Mas nem por isso a gente deixa de fazer o atendimento e responsabilizar, se for preciso”, disse.

O abuso sexual deixa cicatrizes para o resto da vida. Por isso, a violência precisa ser interrompida, por meio da denúncia. “Qual é o papel da família? É uma instituição que deveria proteger a criança e, no caso do abuso sexual, está sendo seu pior algoz”, destaca. É preciso observar o comportamento da criança. Se ela disser que está sendo vítima de abuso, a mãe costuma pensar que é fantasia e, às vezes, é. Mas, é preciso lançar um olhar mais atento. “Na maioria dos casos, a criança pode estar contando uma história verdadeira”.

SERVIÇO
DENUNCIE

> Disque-Denúncia Municipal: 0800 285 0880
> Disque-Denúncia Estadual: 0800 285 1407
> Disque-Denúncia Nacional: 100

LEIA AMANHÃ
> Em algumas maternidades de Fortaleza, constatam-se casos de meninas grávidas, após terem sido vítimas de abuso sexual.

RESUMO DA SÉRIE
>O POVO iniciou uma série de matérias sobre abuso sexual de crianças e adolescentes. O número de denúncias cresceu cerca de 60% de 2007 a 2008, no Ceará, conforme dados do Núcleo de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, do Estado. A maioria das crianças sofre a violência dentro de casa.

E-MAIS

> De acordo com o professor e coordenador do curso de Psicologia do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac), Liércio Pinheiro, nem todos os agressores sexuais são pedófilos. “O agressor sexual pode ser um pedófilo ou não. A pedofilia é uma perversão sexual incurável. Não existe ex-pedófilo. Ele cometeu o abuso e vai voltar a cometer”, diz.

> Segundo ele, além do pedófilo, existe outro tipo de agressor que pratica o abuso sexual por fatores emocionais envolvidos. “Ele pode ter sido agredido na infância e estar reproduzindo isso”, explica. Pinheiro afirma que a diferença do pedófilo é o desejo incontrolável por crianças. “O outro tipo de agressor pode ter desejos, mas não são tão incontroláveis quanto os do pedófilo”.

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Maioria dos casos ocorre na família

Os casos de abuso sexual de crianças e adolescentes fazem parte da rotina da 12ª Vara Criminal, no Fórum Clóvis Beviláqua. Segundo a promotora da unidade, Edna Lopes Costa da Mata, a maioria dos casos é intrafamiliar (quando a violência é cometida pelo padrasto ou mesmo pelo pai ou parente). Há outras situações em que o agressor não é da família, mas desfruta da confiança, como um vizinho ou professor.

Edna explica que a pena para os casos de estupro ou atentado violento ao pudor varia de seis a dez anos, mas, quando o abusador é o pai, tutor ou parente, a pena tem acréscimo de metade, ou seja: pode variar de nove a 15 anos. A promotora afirma ainda que quando a vítima tem menos de 14 anos, a violência é presumida. “Nestes casos, o agressor não pode alegar que foi seduzido”.

De acordo com Edna, já houve situações em que a criança não compreendia que estava sendo vítima de violência e, aos 13 anos, descobriu que era vítima desde os 5 anos. É uma relação desigual. “O pai tem a autoridade, tem a confiança. Às vezes, ele diz que é assim mesmo, para a menina aprender (alguma lição)”.

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Por:
Assessoria de Comunicação

 
   
   
   
     
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