Helena foi vítima de abuso sexual desde ou 6 ou 7 anos até os 19, quando saiu de casa. Hoje, tem 35 e ainda sente as cicatrizes que ficaram na alma. No último dia da série, ela conta que, com a ajuda psicólogica, aprendeu a dar um outro significado ao sofrimento
Tristeza, baixa autoestima, dificuldade de se relacionar. Citadas assim, consequências de um abuso sexual não dão a dimensão do trauma que se enraíza. “Eu tinha nojo de mim mesma. Passava dias sem pentear o cabelo, não tomava banho, não trocava a calcinha, não lavava minhas calcinhas, não escovava os dentes. Queria que ele sentisse esse nojo de mim”, lembra Helena. Ela começou a ser abusada pelo tio por volta dos 7 ou 8 anos, violência que perdurou até os 19, quando saiu de casa.
Longe do agressor, passou a não se cuidar de outra forma. Expunha-se a riscos. Sentia-se inferior às outras pessoas. Tinha medo de ser julgada e sentia culpa pelo erro que não cometeu. Hoje, Helena Damasceno tem 35 anos e a dor continua. Mas ela resolveu se dar a chance de ser feliz. “Eu não diminuo a dor que eu sentia, mas a maneira com que eu convivo com ela é diferente”. Helena ressignificou o sofrimento. Trabalha como pesquisadora do Laboratório de Estudos da Criança e do Adolescente (Leca), do Município.
Há cerca de quatro anos, procurou pela quarta vez uma psicóloga. Não entendia por que precisava carregar a culpa. Sentia-se pesada com sentimentos negativos. Por sugestão da própria psicóloga começou a escrever sua história. “Eu me sentia numa estrada áspera, como se eu tivesse muita bagagem. Fui deixando umas coisas no chão, pra me tornar leve”. O resultado foi o livro “Pele de Cristal”, publicado ano passado, com o apoio da Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci).
O livro e a terapia lhe ajudaram a entender que a experiência foi muito dolorosa, mas foi uma dentro de muitas outras. “A terapia, pra mim, foi e até hoje é indispensável, porque sozinha eu me perco”. Aprendeu ainda a perdoar o próprio silêncio. Até hoje, o agressor não foi responsabilizado e a família não sabe sobre o abuso. Ninguém dialoga sobre isso.
Helena era a mais nova da família. Com oito dias de nascida, a mãe biológica lhe deu à avó. Vivia entre os tios e com a própria mãe como se fosse irmã. “Passava muito pela minha cabeça: Se eu falar alguma coisa, eu vou acabar com a vida da mamãe (referindo-se à vó). Ele era o filho mais querido dela”, recorda. Embora não acreditasse, esperava o dia em que alguém lhe ajudasse e livrasse da violência.
A maior ajuda veio anos mais tarde, por volta de 2004, quando começou a trabalhar como educadora social, ajudando outras crianças vítimas de violência. “Era muito doloroso pra mim. Eu me via nas crianças. Eu tinha uma idéia de que só queria ajudar, mas voltava do trabalho quebrada. Eram histórias muito dolorosas, que mexiam muito comigo”, comenta. De tanto dizer que as crianças precisavam de ajuda psicológica, decidiu ouvir o próprio conselho. Precisava cuidar de si. “Eu era viciada em sofrimento”, diz.
Até hoje, Helena não perdoa o tio. Mas, na opinião dela, a responsabilização do agressor é muito mais do que colocá-lo atrás das grades. Entende que ele precisa de acompanhamento psicológico assim como ela. “Prender é tirar da minha frente. E isso não é justiça. Justiça é evitar que ele faça outras vítimas”.
E-MAIS
> Hoje, Helena não sente mais culpa por ter calado. “Na época, eu calei pela minha mãe e pelo papai. Quando eles morreram, eu me fiz a pergunta: Vou me calar agora, por que? A dor veio maior. Eu não reagia”, diz. Foram quatro meses desde que a psicóloga sugeriu escrever o livro e começar a escrever. Depois que começou, não parou mais. Os textos que mais tarde virariam livro foram escritos em três meses.
> Helena começou a trabalhar com crianças em 1999, quando era voluntária num grupo de evangelização espírita. “Era um coral infantil. Eu era fascinbada. A partir daí, comecei a descobrir que existia área social, direito da infância... Criança tinha direito? Comecei a estudar, a admitir a própria violência”, recorda.
DENUNCIE
> Disque-Denúncia Municipal: 0800 285 0880
> Disque-Denúncia Estadual: 0800 285 1407
> Disque-Denúncia Nacional: 100
RESUMO
>Na última segunda-feira, O POVO iniciou uma série de matérias sobre abuso sexual de crianças e adolescentes. Dados do Núcleo de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes indicam que o número de denúncias cresceu cerca de 60% de 2007 a 2008, no Ceará. Na terça-feira, O POVO mostrou que, conforme especialistas, o pacto de silêncio ainda não foi superado pelas classes média e alta, onde a violência continua velada. Ontem, a gravidez de adolescentes vítimas de abuso sexual foi o tema.
Em 2009, um aborto legal por motivo de violência foi realizado na Maternidade Escola Assis Chateubriand (Meac), em uma adolescente de 11 anos, vítima de um tio. Também neste ano, uma jovem de 19 anos foi atendida na unidade, grávida de 11 meses, em razão de estupro.
O agressor é o marido da madrinha, com quem ela mora. Na ocasião, a jovem manifestou o desejo de abortar. De acordo com a enfermeira Vera Rolim, ela foi orientada a fazer um boletim de ocorrência, para que o caso fosse regularizado conforme o protocolo do MS, mas ela não retornou mais à maternidade.
Dados da Meac indicam que no ano de 2008 nenhum aborto legal foi realizado em adolescentes. No entanto, o hospital fez atendimento de quatro meninas vítimas de abuso sexual. “De janeiro a maio, não houve nenhuma ocorrência na Meac, mas sabemos que a violência acontece. Isso demonstra a falta de informação que existe sobre os serviços cadastrados pelo Ministério a mulheres vítimas de violência, como a Meac e o Gonzaguinha de Messejana”, disse.
Em junho, houve o atendimento de uma adolescente de 12 anos, abusada sexualmente pelo pai, mas não houve gravidez. Em julho, chegou à unidade o caso da criança de 3 anos, abusada sexualmente pelo companheiro da mãe. Em agosto, houve um novo atendimento de uma adolescente de 13 anos, estuprada por um desconhecido, e em dezembro de uma jovem de 18 anos. Segundo a enfermeira, também não houve gravidez nestes casos. (LG).
A Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci), por meio da Rede Aquarela, oferece atendimento psicossocial às crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, bem como às famílias.
De acordo com a coordenadora da Rede, Germana Vieira, toda a família é acompanhada para que haja a garantia de direitos. “Além do abuso sexual, nessas famílias se constatam a negligência, falta de documentação, de acesso a posto de saúde”, explicou.
Segundo ela, uma equipe - formada por psicóloga, assistente social, advogada e duas assessoras comunitárias - trabalha dentro da Delegacia de Combate à Exploração da Criança e do Adolescente (Dececa). Quando chega algum caso, primeiro, a família é atendida pela equipe e, em seguida, encaminhada para o procedimento na delegacia. “Geralmente essa família está fragilizada, não sabe como proceder. Toda orientação é dada pelas advogadas”.
Hoje, a Rede Aquarela acompanha 176 casos, enquanto a meta do Governo Federal é de apenas 80. Para cumprir a demanda, quando chega um encaminhamento, a Rede faz uma visita domiciliar e, se o caso for grave, muito delicado, é marcado atendimento. Quando não é muito grave, o atendimento espera 15 dias. “Todos os casos são sérios, porque tudo é violência, mas a gente sabe que algumas situações são mais extremas, como casos de estupro”, destaca.
Segundo Germana, a maior dificuldade é a participação da própria família, pois, muitas vezes, existe uma relação de conivência. Às vezes, a criança conta que está sendo vítima e a mãe não acredita. “A gente tem de contar com alguma pessoa de referência na família. Nosso trabalho com o Conselho Tutelar é fundamental. Se essa criança não está indo ao atendimento porque a mãe não acredita, o Conselho Tutelar apóia, orienta e responsabiliza a família”, diz. (LG)
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