Projeto de incentivo à Leitura
A leitura pula a janela da sala de aula e corre livre na Lagoa do Porangabuçu, no bairro Rodolfo Teófilo
Na Lagoa do Porangabuçu, no Rodolfo Teófilo, o pôr-do-sol é diferente: Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado, Cecília Meireles e até o colombiano Gabriel García Márquez, entre outros pares, juntam-se ao ir e vir de bicicletas e caminhadas no calçadão. É só procurar a faixa que anuncia “Projeto Leitura na Praça” para encontrá-los.
Às quartas-feiras, aos sábados e aos domingos, a partir das 17 horas, o secretário escolar Antônio Nonato Filho, 39, torna o cenário à beira da lagoa ainda mais atraente. Em um canto da praça, timidamente, ele dispõe duas, três cadeiras junto aos bancos de concreto e enche uma banqueta e outra com livros e gibis. Um acervo particular, transportado no velho Uno e que o funcionário público vem enriquecendo, pacientemente, há dez anos. “Sou de família pobre. Mas não é aquele pobre de novela, não, é pobre mesmo. Ia à banca e não podia comprar os livros e as revistas que eu queria”.
Todo pobre de nascença tem, em si, uma surpreendente solidariedade. Por nunca esquecer da fome, partilha os alimentos. Há dois meses, quando iniciou o projeto, Antônio realiza a multiplicação da leitura. É simples: “Você pega um livro e vai ler na praça”. O suficiente para fazer o pequeno Carlos Daniel, 3, voar. “Moro aqui perto, em um apartamento, e sempre venho com ele para ‘se soltar’”, conta a dona-de-casa Daniele Teixeira da Silva, 25, mãe do garoto. “Ele ainda não sabe ler, só desenha. Mas pede para eu ler a história dos três porquinhos”, completa.
As crianças acabaram as donas das histórias. São a maior parte do público fiel do projeto. Elas vêm com os amigos de infância, feito cavaleiros em suas bicicletas ainda com rodinhas, com a disposição e a imaginação inesgotáveis dos sete, oito anos. Vêm para descobrir, no chão da praça, o mundo maravilhoso das palavras ou para fundar, com canetinhas coloridas, seus próprio reinos - quem ainda não sabe ler pode compor o “Mural dos Artistas”, uma reunião de desenhos.
E são as crianças que trazem pais e avós para mais perto dos livros. “O alvo é o adulto, para que sirvam de exemplo. A ideia é que os adultos possam mostrar que a leitura é um hábito prazeroso”, soma Antônio Nonato. Daí ele juntar o útil à brisa agradável que circunda a Lagoa do Porangabuçu. O projeto começou enquanto Antônio corria no calçadão da lagoa e, com uma vareta, vez em quando, limpava a água suja. Ao associar leitura e praça, acredita, ele faz uma ponte com a preservação do meio ambiente local.
Na verdade, esta história tem outro começo, mais antigo. Era uma vez um menino pobre que queria ter dinheiro para comprar livros. E sempre ia à banca de revistas apenas para se certificar que seus heróis - Homem-Aranha, Thor -continuavam lá. “Minha vida era de um garoto comum, que não tinha acesso aos gibis”, reitera Antônio Nonato. Na escola pública, ele procurou por Iracema e outros clássicos de ouvir dizer. “Se existia, na escola que eu estudava, era bem escondido”. Aos poucos, ele vai preenchendo os vãos. E, mesmo com o passar do tempo, ele não perde de vista um certo menino. “Tem um livro que ainda não tive condições de comprar. É O Apanhador no Campo de Centeio. Faz uns 30 anos que eu quero ler esse livro. E ainda vou ler”, sorri, teimosamente.
Acompanhe a série
O POVO mostrou na série, iniciada na última sexta-feira, que jovens do Grande Bom Jardim e moradores de bairros estigmatizados da cidade demonstram que é possível escrever muitos finais felizes. Nas zonas de conflito da metrópole, muitos se salvam do fogo cruzado ao optar por outros caminhos. O Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), que está sendo implementado no Grande Bom Jardim, junta-se a uma rede de ações sociais que, cotidianamente, já cuidam do lugar e de seus habitantes. Na edição de ontem, a reportagem mostrou que, além dos projetos sociais e das políticas de governos, existem ações simples que, no dia a dia, tornam o mundo melhor.
SERVIÇO
Projeto Leitura na Praça
Empréstimo de livros, na Lagoa do Porangabuçu (Rodolfo Teófilo), às quartas-feiras, aos sábados e aos domingos, a partir das 17 horas. A leitura deve ocorrer no espaço da própria praça (não é permitido levar o livro para casa).